Renan Filho posa de defensor de vitimas, mas já defendeu a Braskem que destruiu Maceió
Candidato ao governo cobra prioridade às vítimas do desastre em Maceió, sete anos depois de defender que empresa continuasse produzindo; campanha de 2014 recebeu R$ 320 mil da petroquímica
Por Redação com Francês News
A trajetória pública de Renan Filho (MDB) diante da tragédia da Braskem não é apenas contraditória: ela expõe um reposicionamento político que só ocorreu quando o desastre já havia destruído cinco bairros de Maceió e se tornado irreversível. O contraste entre o que ele dizia quando era governador e o que afirma agora é profundo, documentado e impossível de ignorar.
Em 2019, mesmo após o laudo oficial da CPRM apontar a mineração como causa direta do afundamento dos bairros, Renan Filho declarou que era necessário “manter a mineração da Braskem”, insistindo que isso poderia ocorrer “com segurança”.
“O governo do Estado suspendeu as licenças de operação da Braskem e a Agência Nacional de Mineração também. Por isso eles resolveram paralisar a operação da indústria. Nós depois disso vamos com serenidade conversar para que não traga impacto econômico que eventualmente a empresa continue produzindo desde que não traga riscos para o cidadão alagoano”, ponderou Renan Filho, em entrevista à TV Gazeta de Alagoas, em maio de 2019, dois dias após laudos atentarem a culpa da Braskem.
A fala indica uma prioridade clara: preservar a operação da empresa que já havia provocado o maior deslocamento populacional da história de Maceió. Enquanto famílias eram removidas às pressas, o governador se preocupava em não interromper a atividade econômica da companhia.
A tolerância do ex-governador e de seus auxiliares não foi pontual. Em 2024, já como ministro de Lula, Renan Filho viu seu secretário-executivo do Ministério dos Transportes, George Santoro, ex- Sefaz, defender a volta da mineração da Braskem em Alagoas, em local seguro e cumprindo todo licenciamento ambiental, ignorando o impacto social, econômico e psicológico que já havia devastado milhares de vidas. A base política do ex-governador continuava tratando a empresa como parceira estratégica, mesmo depois de ela ter sido identificada como responsável pelo colapso urbano.
A guinada só vem neste ano eleitoral de 2026, quando Renan Filho, como senador e candidato a governador, passou a criticar o uso dos recursos pagos pela Braskem, alegando que é preciso “apoiar quem foi diretamente afetado”.
O discurso atual tenta colocá-lo como defensor das vítimas, cobrando prioridade para famílias que viviam da Lagoa Mundaú e questionando a gestão municipal dos recursos de seu adversário e ex-prefeito JHC (PSDB), que liderou acordos para ações de acolhimento às vítimas e obras de reparação da destruição.
Quem antes relativizava o risco e defendia a continuidade da mineração agora se apresenta como fiscal da reparação, justamente no momento que a empresa pediu recuperação judicial, após desembolsar bilhões para reparar danos.
Essa transformação não reflete uma evolução gradual, mas uma readequação ao novo contexto político. Renan Filho só adotou um tom crítico quando a tragédia já estava consolidada, os bairros destruídos, a empresa pressionada nacionalmente e obrigada a pagar bilhões em indenizações, e já em processo de dificuldades financeiras.
A relação estreita com a Braskem está registrada na história política e eleitoral de Alagoas, por ter conquistado seu primeiro mandato de governador de Alagoas, em 2014, financiado por R$ 320 mil de doação de campanha da Braskem e R$ 829 mil da Odebrecht, que a controlava a empresa.
A nova postura de Renan Filho não apaga a condescendência que marcou sua gestão seu grupo político, nem o fato de que, quando tinha poder para agir, escolheu proteger a mineração em vez das famílias.