Geral
absurdo

R$ 13,4 milhões e um estádio à beira do colapso: o que o governo de Alagoas não conseguiu explicar sobre o Rei Pelé

Contrato de R$ 4,5 milhões por 12 meses virou empenhos de R$ 13,4 milhões em sete anos, sem aditivos públicos localizados

Por Redação com Francês News

Em fevereiro de 2019, o então governador Renan Filho (MDB) assinou as ordens de serviço para reformar o Estádio Rei Pelé. O valor da primeira etapa era de R$ 4,5 milhões, com promessa de entrega até abril daquele ano, dentro de uma reforma maior orçada, à época, em R$ 11,9 milhões.

No mesmo mês, a Secretaria de Estado do Esporte, Lazer e Juventude (SELAJ) assinou o Contrato nº 001/2019 com a Nave Construções Ltda-ME, empresa sediada em Marechal Deodoro, para a manutenção predial do estádio: R$ 4,5 milhões, por 12 meses. Não houve licitação própria. A contratação se deu por adesão — a chamada "carona" — à Ata de Registro de Preços nº 002/2018, da Secretaria de Segurança Pública (SSP), originalmente voltada a instalações policiais.

Sete anos depois, o contrato de 12 meses segue rendendo empenhos. Segundo o Relatório Geral de Empenhos da UG 360021, obtido no Portal da Transparência/CGE-AL em 20 de setembro de 2026, o governo de Alagoas empenhou à Nave Construções R$ 13.462.019,70 entre 2019 e 2025 — quase o triplo do valor contratado. Pela regra geral da lei de licitações, acréscimos a um contrato são limitados a 25%, o que daria um teto de R$ 5,625 milhões. Os termos aditivos que justificariam a diferença não foram localizados em fontes públicas até o fechamento desta reportagem.

O que sobrou do que foi entregue em 2019


As obras anunciadas em 2019 — reforma dos vestiários da arbitragem, implantação de sala para exames antidoping, geradores para os jogos, novo placar eletrônico, sinalização do estádio e ampliação dos bancos de reserva — foram, de fato, executadas na época.

Mas o que a estrutura do Rei Pelé mostra hoje conta outra história. Em 26 de agosto de 2026, a Procuradoria-Geral do Estado (PGE-AL) publicou no Diário Oficial um despacho cobrando providências emergenciais no estádio. O documento se baseia em laudo técnico de junho de 2026, elaborado pelo Consórcio High Tech-Progetto, que apontou risco de colapso parcial em diferentes pontos da estrutura:

• as lajes superiores das Rampas 02 e 03, com recomendação de interdição parcial imediata e escoramento provisório;
• os alojamentos 29, 31 e 36 do Setor 05, também com recomendação de interdição parcial, por risco de desplacamento de massa estrutural;
• o pórtico do estádio, classificado integralmente como estrutura crítica;
• o Setor 04, com necessidade de intervenções corretivas urgentes;
• a laje da "ferradura", no Setor 02, que precisa de recuperação e reforço.

A PGE registrou que os elementos apresentados pelo Estado não foram suficientes para comprovar o cumprimento das medidas emergenciais recomendadas no laudo, e que não havia, até então, manifestação técnica conclusiva sobre as condições atuais de uso das áreas afetadas. O órgão foi direto: eventuais questionamentos sobre o laudo não suspendem nem condicionam a adoção das medidas emergenciais.

Após a repercussão do despacho, a Seinfra e a SELAJ divulgaram nota conjunta confirmando que as Rampas 02 e 03 e os alojamentos indicados seguem com acesso restrito, e que o escoramento provisório das rampas está sendo encaminhado, enquanto as intervenções definitivas ainda dependem de avaliação técnica.

Ou seja: é o próprio Estado, por meio de sua Procuradoria, quem reconhece risco de colapso parcial em um estádio que recebeu R$ 13,4 milhões em pagamentos de manutenção ao longo dos seis anos anteriores ao laudo.

O que a SELAJ diz ter feito


Procurada pela reportagem, a SELAJ respondeu por nota da assessoria. A pasta afirma ter modernizado o gramado, com renovação dos sistemas de drenagem e irrigação, feito intervenções no sistema de iluminação, reformado vestiários e áreas de apoio, melhorado os alojamentos, reformado o Auditório Lauthenay Perdigão e o Museu dos Esportes, e implantado um sistema de videomonitoramento com mais de 80 câmeras. Diz ainda que o estádio recebeu 78 partidas somente em 2025, que 6.644 pessoas usaram os alojamentos e 6.081 participaram de atividades no auditório, e que a manutenção de um equipamento com mais de cinco décadas é "processo permanente".

A nota não menciona a Nave Construções, o Contrato nº 001/2019, os aditivos ou qualquer valor pago. Também não informa quais das obras citadas foram custeadas por esse contrato, nem quem atestou o recebimento dos serviços em cada um dos sete anos.

Perguntada de novo, a SELAJ pediu tempo


A reportagem formalizou uma segunda rodada de perguntas: quais serviços a Nave executou ano a ano, quem foi o fiscal do contrato, qual instrumento sustentou a prorrogação além dos 12 meses, se houve parecer jurídico para a adesão à ata da SSP, e quanto foi efetivamente pago, por ano. A resposta foi esta, na íntegra:

"A Secretaria já encaminhou as informações referentes aos pontos apresentados anteriormente. Continuamos à disposição. Porém, como os novos questionamentos envolvem diferentes contratos e documentos administrativos de vários anos e períodos de gestão, é necessário tempo para o levantamento e conferência nos respectivos processos para que as informações sejam prestadas com precisão. Muitas das informações solicitadas podem ser acessadas diretamente no Portal da Transparência. Para levantamentos documentais detalhados, a solicitação deve ser formalizada pelos canais oficiais de acesso à informação do Estado."

Em outras palavras: a pasta que assinou o contrato, geriu os pagamentos por seis anos e hoje lida com um laudo de risco de colapso no mesmo estádio diz que precisa de tempo para localizar os próprios processos — e sugere que a reportagem procure sozinha.

A promessa que também segue sem prazo


Em 2019, o governo também anunciou um complexo esportivo no Rei Pelé, sob responsabilidade da Secretaria de Infraestrutura (Seinfra) e com recursos de quase R$ 2 milhões do Ministério do Esporte: campo de futebol society, quadra poliesportiva coberta, piscina semiolímpica e dojô. Quase sete anos depois, a SELAJ afirma, na mesma nota, que o projeto de ampliação — agora descrito como ginásio, piscina, área para modalidades de luta e espaço de convivência — passou por "adaptações técnicas" e está submetido à análise de "órgãos competentes", sem detalhar quais, desde quando, nem o que ocorreu com os recursos federais anunciados originalmente.