Documentos oficiais revelam interiorização de facções criminosas em diferentes regiões de Alagoas
Governo acumula operações, prisões e queda nos homicídios, mas documentos mostram que organizações criminosas ampliaram sua presença geográfica
Por Francês News
A presença de facções criminosas em Alagoas já ultrapassou os limites de Maceió e aparece em documentos oficiais referentes à Região Metropolitana, Litoral Norte, Litoral Sul, Agreste, Baixo São Francisco e Sertão. Levantamentos da Secretaria de Estado da Segurança Pública (SSP), investigações do Ministério Público e operações realizadas nos últimos anos identificam PCC, Comando Vermelho e outros grupos criminosos em diferentes pontos do território alagoano.
O assunto ganhou novo peso político depois que o deputado federal Arthur Lira afirmou, durante sabatina na TV Ponta Verde, que importantes pontos turísticos do Litoral Norte estariam dominados por facções. O governador Paulo Dantas reagiu, acusou Lira de mentir e afirmou que “não existe território dominado por facções criminosas aqui em Alagoas”.
Os documentos oficiais não permitem afirmar que cidades inteiras estejam sob domínio das facções. Mas registram expressamente núcleos criminosos, lideranças regionais, grupos rivais, influência de facção e disputas por território. Em uma das áreas mais sensíveis, o próprio Estado adotou uma ação definida oficialmente como “ocupação permanente do território”.
Litoral Norte concentra alguns dos registros mais graves
Na Rota dos Milagres, que reúne alguns dos principais destinos turísticos de Alagoas, a SSP analisou 19 desaparecimentos registrados entre 2022 e 2026 em Porto de Pedras, São Miguel dos Milagres e Passo de Camaragibe.
Segundo levantamento divulgado pela Secretaria em abril deste ano, todos os 19 casos apresentavam ligação direta ou indireta com o tráfico de drogas e o crime organizado. As investigações apontaram como possíveis motivações disputas territoriais entre facções rivais, dívidas relacionadas ao narcotráfico, suspeitas de delação e violações das regras internas dos grupos.
Na região, a Segurança Pública identificou quatro grupos: Tropa do Kebinho e Trem Bala, associados ao Comando Vermelho; o Primeiro Comando da Capital (PCC); e a Tropa dos Crias, ligada ao PCC.
Em outro registro oficial, a SSP apontou um homem como principal liderança do Comando Vermelho em Passo de Camaragibe, chefe do tráfico local e suspeito de atuar como mandante de homicídios.
A resposta do Estado incluiu o reforço de Bope, Rotam e Pelopes durante 24 horas. No comunicado divulgado em abril, a própria SSP classificou a estratégia como “ocupação permanente do território”.
A expressão levanta uma questão inevitável diante da afirmação de que não existe problema territorial relacionado às facções: se não há dimensão territorial, por que os próprios órgãos de segurança registram disputas territoriais e a necessidade de ocupação permanente?
Região Metropolitana tem registros de disputa territorial
A documentação não se limita ao Litoral Norte.
Em Rio Largo, investigação do Ministério Público e da Segurança Pública identificou organizações criminosas em diferentes localidades do município. Santa Luzia do Norte e Satuba apareceram como bases de apoio logístico e operacional.
Segundo o Ministério Público, havia “disputa violenta por território”, envolvendo confrontos armados e execuções.
Em Maceió e Marechal Deodoro, outra operação da SSP identificou um braço do Comando Vermelho. O comunicado oficial chegou a mencionar localidades sob “forte influência da facção criminosa”.
Esses registros mostram diferentes graus de atuação e, por rigor, não devem ser tratados como equivalentes. Presença de integrantes, influência, existência de um núcleo, disputa territorial e domínio de uma área são conceitos distintos.
Comando Vermelho aparece também no Litoral Sul
No Litoral Sul, uma operação realizada em maio de 2026 identificou uma organização ligada ao Comando Vermelho.
Segundo a SSP, o grupo atuava principalmente em Jequiá da Praia, Roteiro — incluindo a região da Praia do Gunga — e Coruripe, além de Maceió. Os investigados eram relacionados ao tráfico de drogas e porte ilegal de armas, e a investigação também apontava indícios de homicídios.
Em São Miguel dos Campos, a situação aparece de forma ainda mais explícita. Em março deste ano, a SSP informou que PCC, Comando Vermelho e Neutro possuíam núcleos no município.
A Secretaria indicou atuação nos conjuntos Hélio Jatobá I, II e III, Mutirão e Loteamento Wellington Torres. Os grupos também eram investigados por homicídios.
Registros chegam ao Agreste, Baixo São Francisco e Sertão
A interiorização aparece também em investigações e operações relacionadas ao Baixo São Francisco, Agreste e Sertão.
No levantamento realizado para esta análise, foram encontrados registros relacionados a facções ou organizações criminosas ligadas ao tráfico em municípios como Penedo e Piaçabuçu, no Baixo São Francisco; Arapiraca e Craíbas, no Agreste; e Santana do Ipanema, Dois Riachos, Senador Rui Palmeira, Poço das Trincheiras e São José da Tapera, no Sertão.
Nem todas essas investigações identificam nominalmente PCC ou Comando Vermelho. Quando o documento oficial registra apenas “organização criminosa”, não é possível atribuir ao grupo uma facção específica.
O quadro documentado, entretanto, já atravessa sete grandes áreas: Maceió, Região Metropolitana, Litoral Norte, Litoral Sul, Agreste, Baixo São Francisco e Sertão.
A apuração encontrou registros relacionados ao crime organizado em pelo menos 19 municípios, número que deve ser entendido como um piso documental e não como um levantamento definitivo de todas as cidades onde existem facções.
Também não significa que quase 20% do território alagoano esteja sob domínio criminoso. O que o levantamento demonstra é que registros de atuação de organizações criminosas aparecem em aproximadamente um de cada cinco municípios quando considerado esse piso documental.
Mais de 1,1 mil prisões revelam dimensão do enfrentamento
A própria resposta do Estado oferece outro indicador da dimensão do fenômeno.
Segundo balanço divulgado pela SSP em maio de 2025, mais de 450 operações integradas, realizadas entre janeiro de 2022 e maio daquele ano, resultaram na prisão de 1.109 pessoas ligadas a facções.
Entre os presos, 412 eram relacionados ao PCC, 265 ao Comando Vermelho e 25 ao Bonde dos Pobres Loucos, associado ao PCC. Em outros 407 casos, o balanço não apontou vínculo faccioso específico.
Das 1.109 prisões, 995 ocorreram dentro de Alagoas. As demais alcançaram outros estados, mostrando também a dimensão interestadual das redes investigadas.
Os números demonstram que o Estado não está parado diante do problema. Há operações, prisões, apreensões e atuação das forças policiais.
Homicídios caem, mas indicador não mede sozinho o poder das facções
Outro resultado favorável ao governo precisa integrar qualquer análise equilibrada: os homicídios caíram.
Alagoas encerrou 2025 com 948 Crimes Violentos Letais Intencionais, queda de 11,1% em relação a 2024 e o menor resultado da série histórica da SSP.
A redução continuou em 2026. No primeiro quadrimestre, foram registrados 289 CVLIs, contra 349 no mesmo período de 2025 — queda de 17,2%. Na comparação com o primeiro quadrimestre de 2012, a redução chega a 64,6%.
São resultados relevantes e representam vidas preservadas.
Mas a taxa de homicídios, isoladamente, não mede toda a capacidade de atuação do crime organizado.
Uma facção pode recrutar jovens, comercializar drogas, movimentar armas, cobrar dívidas, ameaçar adversários, estabelecer redes logísticas e disputar mercados ilegais sem que cada uma dessas atividades produza um homicídio.
É possível, portanto, que duas realidades coexistam: a violência letal pode cair enquanto organizações criminosas permanecem estruturadas ou se espalham geograficamente.
Combate existe, mas interiorização não foi contida
Os documentos disponíveis não sustentam a afirmação de que todo o Litoral Norte esteja dominado por facções. Tampouco permitem calcular qual percentual do território alagoano estaria efetivamente sob controle criminoso.
Mas permitem outra conclusão.
O crime organizado se interiorizou.
PCC, Comando Vermelho e outros grupos aparecem em documentos que vão da capital ao interior. Há registros oficiais de núcleos criminosos, lideranças regionais, influência de facção e disputas territoriais.
Ao mesmo tempo, o Estado realizou centenas de operações, efetuou mais de mil prisões de pessoas relacionadas a facções no período analisado e conseguiu reduzir significativamente os homicídios.
A questão central passa a ser, portanto, a eficácia dessa estratégia para além das prisões.
O combate existe e produziu resultados, mas, até agora, não conseguiu impedir a interiorização das organizações criminosas.
Não basta prender um integrante se a estrutura consegue recrutar outro. Não basta realizar uma operação se posteriormente o grupo consegue se reorganizar. E reduzir homicídios, embora fundamental, precisa ser acompanhado da redução da capacidade das facções de recrutar pessoas, movimentar mercados ilegais e exercer influência sobre comunidades.
É nesse ponto que a discussão entre Arthur Lira e Paulo Dantas deixa de ser apenas eleitoral.
Os documentos oficiais não autorizam dizer que Alagoas esteja dominada pelas facções. Mas também tornam difícil negar a existência de uma dimensão territorial do problema quando os próprios órgãos públicos falam em “disputas territoriais”, “forte influência” e “ocupação permanente do território”.
A pergunta que permanece é mais importante do que saber quem venceu a discussão política:
quanto espaço o Estado ainda precisa recuperar para garantir que, em cada comunidade de Alagoas, quem estabeleça as regras seja o poder público — e não o crime organizado?
FONTES
Secretaria de Estado da Segurança Pública de Alagoas — levantamentos sobre os 19 desaparecimentos na Rota dos Milagres; ocupação policial permanente no Litoral Norte; operações Tolerância Zero, Pé na Areia e ações em Maceió e Marechal Deodoro; balanço de mais de 450 operações e 1.109 prisões de pessoas ligadas a facções; indicadores de Crimes Violentos Letais Intencionais de 2025 e 2026.
Ministério Público do Estado de Alagoas — investigação e Operação Comando Vermelho 2, envolvendo Rio Largo, Santa Luzia do Norte, Satuba e Maceió.
Universidade Federal de Alagoas e Revista Brasileira de Ciências Sociais — pesquisas sobre presença de facções, territorialização, sistema prisional, juventude e interiorização das redes criminais em Alagoas.