Exclusivo: dono da construtora do Hospital da Criança pagava suposta amante de secretário, diz PF
Hospital usado pelo pré-candidato Renan Filho (MDB) como vitrine da saúde em sua pré-campanha, teve obras executadas por empresa citada no inquérito da Operação Estágio IV, investigação da Polícia Federal
Por Francês News
Enquanto o pré-candidato ao Governo de Alagoas, Renan Filho (MDB), destaca em suas redes sociais o Hospital da Criança, em Maceió, como um dos principais legados de sua gestão na saúde, documentos da Operação Estágio IV, da Polícia Federal, colocam a empresa responsável pelas obras da unidade no centro de uma investigação que apura um suposto esquema de corrupção na Secretaria de Estado da Saúde (Sesau).
Obtido com exclusividade pelo portal Francês News, o inquérito aponta que o empresário Luciano Neves Garcia, proprietário da NG Engenharia e Construções Ltda., realizou repasses financeiros para Andreia Araújo Cavalcante, apontada pelos investigadores como suposta amante do secretário estadual da Saúde, Gustavo Pontes de Miranda Oliveira. Segundo a Polícia Federal, foram identificadas sete transferências, realizadas entre dezembro de 2023 e agosto de 2024, que somam R$ 369 mil.

A investigação considera relevante o fato de as movimentações financeiras terem ocorrido no mesmo período em que a NG Engenharia executava contratos milionários firmados com a Secretaria da Saúde. Para a Polícia Federal, esse conjunto de elementos justifica o aprofundamento das apurações sobre a origem e a finalidade dos pagamentos.

NG Engenharia recebeu mais de R$ 80 milhões em contratos
O relatório da Polícia Federal identifica a NG Engenharia como uma das empresas beneficiadas por contratos celebrados com a Secretaria da Saúde.
Entre eles estão:
obras de conclusão e adequações do Hospital da Criança, em Maceió;
retomada das obras do Hospital Regional de Palmeira dos Índios.
Somados, os contratos ultrapassam R$ 80 milhões, conforme os documentos analisados pelos investigadores. O inquérito também registra que a empresa recebeu mais de R$ 51 milhões em pagamentos do Governo de Alagoas apenas entre 2023 e 2024.

Além da Polícia Federal, a Controladoria-Geral da União (CGU) apontou possíveis irregularidades nas contratações, como utilização sucessiva de dispensas de licitação, restrição à competitividade e contratação de serviços que, em tese, não apresentariam caráter emergencial. Os apontamentos fazem parte do conjunto probatório ainda em análise pelos órgãos de investigação.

Hospital da Criança virou vitrine da pré-campanha de Renan Filho
Enquanto as investigações seguem em andamento, o Hospital da Criança passou a ocupar espaço de destaque na comunicação política do senador e pré-candidato ao Governo de Alagoas, Renan Filho.
Em vídeo publicado nas redes sociais, o emedebista apresenta a unidade como uma das principais realizações de sua gestão.
"Nós construímos uma rede de saúde pública. Se rodarmos por Maceió veremos o Hospital da Mulher, o Hospital da Criança, o Hospital Metropolitano e o Hospital do Coração", afirma o senador na gravação.
A unidade utilizada como símbolo da expansão da rede estadual é justamente uma das obras executadas pela empresa citada no inquérito da Operação Estágio IV.
O relatório da Polícia Federal, entretanto, não atribui qualquer responsabilidade criminal a Renan Filho, concentrando as apurações sobre contratos administrativos, movimentações financeiras e os investigados formalmente relacionados à operação.
Segundo o inquérito, o empresário Luciano Neves Garcia realizou sete transferências bancárias para Andreia Araújo Cavalcante, totalizando R$ 369 mil.
Para os investigadores, chama atenção a coincidência temporal entre os repasses e a execução dos contratos públicos da NG Engenharia junto à Secretaria da Saúde.
O relatório também reúne conversas, documentos financeiros e análises técnicas que, na avaliação da Polícia Federal, justificam a continuidade das investigações para esclarecer a existência ou não de eventual pagamento de vantagens indevidas.

Operação investiga suposto rombo de R$ 100 milhões
A Operação Estágio IV foi deflagrada pela Polícia Federal em dezembro de 2025 para investigar um suposto esquema de desvio de recursos públicos na Saúde de Alagoas. As investigações apontam indícios de fraudes em contratos, corrupção, organização criminosa e lavagem de dinheiro envolvendo recursos que, segundo a PF, ultrapassariam R$ 100 milhões.
Na ocasião, foram cumpridos mandados de busca e apreensão, além do afastamento cautelar do secretário de Estado da Saúde, Gustavo Pontes, pelo prazo de 180 dias.
À época, o governador Paulo Dantas (MDB) divulgou nota oficial afirmando que o Governo de Alagoas "não compactua com irregularidades" e anunciou a criação de uma comissão para acompanhar o andamento das investigações.
Secretário retornou ao cargo após decisão do STJ
O afastamento de Gustavo Pontes, no entanto, durou pouco mais de dois meses.
Em fevereiro deste ano, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) concedeu liminar suspendendo a medida cautelar e autorizando o retorno do secretário ao comando da Sesau. A decisão do ministro Antonio Saldanha Palheiro acolheu, em análise preliminar, argumentos da defesa sobre possíveis nulidades processuais.
Segundo o relator, havia indícios de que a Polícia Federal iniciou as investigações antes da supervisão do tribunal competente, uma vez que Gustavo Pontes, por ocupar o cargo de secretário de Estado, possui foro por prerrogativa de função.
Após a decisão do STJ, o governador Paulo Dantas assinou decreto tornando sem efeito o afastamento e reconduzindo Gustavo Pontes ao cargo.
Apesar da liminar, o mérito do habeas corpus ainda não foi julgado. A investigação continua em andamento e atualmente tramita sob competência do Tribunal de Justiça de Alagoas (TJAL), após entendimento do Tribunal Regional Federal da 5ª Região (TRF-5) de que os recursos públicos investigados possuem origem estadual.
A investigação ainda está em andamento e não há sentença condenatória contra os investigados.
O Francês News mantém espaço aberto para manifestação da Secretaria de Estado da Saúde, da NG Engenharia, de Luciano Neves Garcia, de Gustavo Pontes, do governador Paulo Dantas e do senador Renan Filho. Caso sejam encaminhados posicionamentos, esta reportagem será atualizada em respeito ao princípio constitucional do contraditório.
Esta é a primeira reportagem do portal Francês News baseada no inquérito da Polícia Federal sobre o suposto desvio de mais de R$ 100 milhões da Sesau. Durante a semana, novas reportagens serão publicadas com base no documento.