Quantos votos elegem um deputado em Alagoas? As contas do quociente e das sobras para 2026
Com 2,44 milhões de eleitores aptos, uma cadeira na Câmara deve custar entre 179 mil e 195 mil votos, e uma vaga na Assembleia, entre 59 mil e 65 mil
Assessoria
Em 2022, o deputado mais votado de Alagoas recebeu 61.142 votos. Mesmo assim, ele não chegou sozinho ao quociente eleitoral daquele ano, que ficou perto de 61,8 mil votos. Foi eleito porque o partido somou votos suficientes.
O caso mostra a lógica que vai definir, no dia 4 de outubro, quem ocupa as 9 cadeiras de Alagoas na Câmara dos Deputados e as 27 da Assembleia Legislativa (ALE): na eleição para deputado, o voto conta primeiro para o partido ou a federação, e só depois para o candidato.
A base de todas as contas é o eleitorado. Segundo as estatísticas oficiais divulgadas pelo TSE em 20 de julho, 2.441.794 eleitores estão aptos a votar em Alagoas, uma redução de apenas 1.100 pessoas em relação a 2024. O número oficial derruba a projeção, que circulou entre lideranças partidárias em maio, de que o estado perderia mais de 200 mil eleitores por cancelamento de títulos e chegaria a outubro com cerca de 2,2 milhões de aptos.
O quociente eleitoral (QE) é o "preço" de uma cadeira. A conta divide o total de votos válidos (votos nos candidatos e nas legendas, sem brancos e nulos) pelo número de vagas em disputa. Se a fração passar de 0,5, o resultado sobe para o número inteiro seguinte; se for igual ou menor, é descartada.
O valor exato só será conhecido depois da apuração, porque depende de quantos eleitores comparecerem e de quantos votarem branco ou nulo. Por isso, a reportagem calculou três cenários a partir do eleitorado oficial.
No primeiro, os votos válidos repetem o padrão de 2022, quando as abstenções somaram 22,39%, os brancos 3,95% e os nulos 3,40%. Naquele ano, cerca de 72% do eleitorado virou voto válido. No segundo, os válidos ficam em 70%, estimativa usada pelos partidos. No terceiro, mais pessimista, abstenção e votos nulos crescem e os válidos caem para 66%, cenário próximo das projeções de especialistas que apontam 180 mil votos para federal e 60 mil para estadual.
Cenário 1: 72% votos válidos (1.758.092 votos) l QE federal: 195.344 l QE Estadual: 65.115
Cenário 2: 70% de válidos (1.709.256 votos) l QE federal: 189.917 voto l QE estadual: 63.306 na estadual.
Cenário 3: 66% de válidos (1.611.584 votos) l QE federal 179.065 votos l QE estadual 59.688.
Com o QE definido, cada partido ou federação tem sua votação total dividida por ele. O resultado é o quociente partidário (QP), e aqui a fração é sempre descartada. Uma federação que some 400 mil votos para federal, no cenário de 70%, conquista 2 vagas diretas (400.000 ÷ 189.917 = 2,1).
Há uma trava individual: para ocupar uma vaga obtida pelo QP, o candidato precisa ter pelo menos 10% do quociente eleitoral. No cenário intermediário, isso significa 18.992 votos para federal e 6.331 para estadual. Se o partido conquistar a cadeira, mas nenhum candidato atingir esse piso, a vaga volta para a disputa.
As sobras
Como a fração do QP é jogada fora, quase sempre sobram vagas. Elas são distribuídas por média em duas etapas.
Na primeira, só entram partidos e federações que alcançaram pelo menos 80% do quociente eleitoral, e só podem assumir candidatos com pelo menos 20% do QE. A média de cada legenda é calculada dividindo seus votos pelo número de vagas já obtidas mais um. Quem tiver a maior média leva a cadeira, e a conta é refeita a cada vaga, considerando as que o partido já ganhou.
Se ainda restarem cadeiras, entra a segunda etapa, alterada pelo Supremo. O STF decidiu que todos os partidos podem participar da última fase de distribuição dessas vagas, antes reservada aos que atingissem a cláusula de desempenho de 80% do quociente para as legendas e 20% para os candidatos. O TSE incorporou esse entendimento às normas das eleições de 2026.
Simulação: como as sobras mudam o resultado
Imagine, com números fictícios e o cenário de 70% (QE federal de 189.917), seis chapas disputando as 9 vagas da Câmara. A chapa A tem 620 mil votos, a B tem 400 mil, a C tem 300 mil, a D tem 170 mil, a E tem 140 mil e a F tem 79 mil.
Pelo quociente partidário, A leva 3 vagas, B leva 2 e C leva 1. Sobram 3 cadeiras. A linha de corte para disputar sobras é de 151.934 votos (80% do QE), o que deixa E e F de fora.
Na primeira sobra, a chapa D tem a maior média (170.000 ÷ 1 = 170.000) e elege um deputado sem ter alcançado o quociente. Na segunda, a média de A (620.000 ÷ 4 = 155.000) supera a de C (150.000) e a de B (133.333). Na terceira, com a média de A já reduzida para 124.000, a vaga vai para C. Resultado final: A com 4, B com 2, C com 2 e D com 1.
A simulação mostra dois efeitos importantes. A chapa B, com 400 mil votos, não ganhou nenhuma sobra. E a chapa E, com 140 mil votos, ficou fora mesmo tendo média maior que a de B, porque não bateu os 80% do quociente. Em 2022, o MDB viveu o lado bom dessa conta: somou 772.570 votos válidos para a Assembleia e ficou com 14 cadeiras, duas a mais do que as 12 garantidas pelo quociente partidário.
O mínimo necessário em Alagoas
No cenário intermediário, uma chapa para deputado federal precisa de 189.917 votos para garantir uma vaga direta e de 151.934 para entrar na disputa das sobras. Para ser eleito, o candidato precisa de 18.992 votos se a vaga vier pelo quociente partidário, ou de 37.984 se vier pela primeira rodada das sobras.
Para deputado estadual, a chapa precisa de 63.306 votos para garantir uma vaga direta e de 50.645 para disputar sobras. O candidato precisa de 6.331 votos numa vaga por quociente e de 12.662 numa vaga por sobra.
Nos extremos, os números oscilam pouco. Com 72% de válidos, o piso para disputar sobras sobe para 156.276 votos (federal) e 52.092 (estadual). Com 66%, cai para 143.252 e 47.751.
Por isso, partidos alagoanos montam chapas pensando no total, e não só em um grande nome. Um candidato com 100 mil votos numa legenda fraca pode ficar de fora, enquanto outro com 30 mil entra na carona de uma federação forte. A lista do TSE reúne mais de cem registros para as nove vagas federais