Política
PRIVATIZAÇÃO DA CEASA

Concessão da Ceasa pode encarecer frutas e verduras em Alagoas, alerta estudo da FGV usado pelo próprio governo Paulo Dantas

Documentos mostram que as taxas cobradas dos comerciantes teriam de subir para equilibrar as contas da central

Por Redação com Francês News

Os estudos da Fundação Getulio Vargas (FGV) que embasam o projeto de concessão da Central de Abastecimento de Alagoas (Ceasa/AL) indicam que a mudança pode chegar à mesa do consumidor. Segundo os documentos, um aumento das taxas pagas pelos comerciantes da central pode ser repassado aos alimentos. A fundação também aponta que, nesse modelo de concessão, o Estado perde parte da capacidade de controlar os valores cobrados.

Os relatórios foram contratados pelo Governo de Alagoas por meio da Alagoas Ativos S.A. Eles foram enviados nesta quinta-feira (29) ao deputado estadual Delegado Leonam, que pediu acesso aos estudos com base na Lei de Acesso à Informação. O Projeto de Lei nº 2.123/2026, do governador Paulo Dantas (MDB), autoriza a concessão da central à iniciativa privada por até 60 anos.

O alerta mais direto está em uma Nota Técnica de junho de 2024. A pedido do governo, a FGV calculou quanto as taxas de permissão de uso teriam de subir para a Ceasa apenas empatar receitas e despesas. A resposta foi quase 80%, sem contar nenhum investimento na estrutura. No mesmo documento, a fundação adverte que esse aumento "pode vir a ser repassado ao produto final, encarecendo os produtos aos consumidores".

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O peso da Ceasa no abastecimento ajuda a medir o alcance desse efeito. Segundo o relatório de impacto econômico da FGV, cerca de 192,4 mil toneladas de alimentos foram comercializadas na central em 2023, entre frutas, verduras, legumes, raízes e cereais. Em 2022, foram 205,1 mil toneladas. Os compradores incluem pequenos e grandes varejistas, mercados, restaurantes e outros serviços de alimentação, que depois revendem ao consumidor final.

A própria FGV destaca que a central tem papel importante na regulação do abastecimento e dos preços dos alimentos. Segundo o estudo, esse papel influencia a economia local, os padrões de consumo e a oferta de produtos frescos ao longo do ano.

Hoje, os valores pagos pelos permissionários são definidos por portaria do Estado: R$ 25,50 por metro quadrado ao mês nas pedras de comercialização e R$ 11,75 na maior parte das lojas. Com a concessão de uso prevista no projeto, a FGV explica que os aluguéis passariam a ser negociados livremente entre a empresa concessionária e os comerciantes. Isso, segundo o relatório, retira do Estado a possibilidade de reajustar e rever esses valores e restringe o controle sobre a chamada modicidade dos preços.

A fundação pondera que o contrato pode obrigar a concessionária a incluir algumas cláusulas nos acordos com os comerciantes, como o índice de reajuste. O estudo também registra que, segundo pesquisas do Instituto de Desenvolvimento Rural e Abastecimento de Alagoas (Ideral), as taxas atuais estão abaixo da média de outras centrais do Nordeste.

O projeto do governo garante as condições atuais por dois anos aos permissionários que estiverem em dia. Depois desse período, os valores passam a ser definidos pela futura gestão.

Na justificativa do projeto, o governo afirma que a concessão vai resolver o grande passivo de infraestrutura do complexo. Segundo o Executivo, esse problema hoje prejudica a qualidade do abastecimento e causa perdas a produtores, comerciantes e consumidores.