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Dentista em casa, posto aberto à noite e o CAPS salvo no tribunal: a revolução na saúde de Maceió para além do HC

Fora da vitrine do Hospital da Cidade, cinco programas municipais mudaram a rotina de quem depende do SUS na capital: 830 mil atendimentos noturnos, 80 novas equipes de Saúde da Família, atendimento odontológico dentro da casa de acamados e uma disputa judicial que impediu a venda de um centro de saúde mental

Por Redação

Maria do Socorro entrou em depressão, separou-se e passou meses sem sair de casa até ser encaminhada, em 2014, ao CAPS Dr. Rostan Silvestre, na Jatiúca, onde aprendeu a bordar com outra usuária da unidade. Hoje vende o que produz e tem carteira de artesã.

Em outubro de 2025, o prédio onde ela se trata foi a leilão. O Governo do Estado colocou à venda o quarteirão da Avenida Antônio Gomes de Barros alegando que o imóvel estava ocioso, embora a unidade atendesse mais de cinco mil pessoas.

No dia 28 daquele mês, o então prefeito JHC entrou na Justiça para anular o certame e, dois dias depois, entregou a reforma da unidade, R$ 1,7 milhão, parte de um pacote de R$ 4,1 milhões que alcançou os cinco CAPS da capital.

A entrega virou festa: houve salva de palmas, bolo e parabéns, e os usuários encenaram um manifesto poético no pátio. O que estava em jogo, para eles, era menos a pintura nova que a permanência do endereço onde são tratados.

Numa cidade que cresce e impõe jornadas cada vez mais longas, conciliar trabalho e cuidado com a própria saúde raramente é simples: para quem passa o dia inteiro empregado, chegar a um posto no horário comercial pode ser inviável. Foi contra essa barreira que a gestão de JHC ampliou o funcionamento da rede municipal.

Criado em dezembro de 2021 com oito unidades, o Corujão da Saúde estendeu o atendimento até as 21h e hoje opera em 24 postos, de segunda a sexta, das 17h às 21h. Os números da Secretaria Municipal de Saúde mostram a curva: eram 426 mil atendimentos em abril de 2025, chegaram a 712.976 em dezembro e ultrapassaram 830 mil em abril deste ano.

A oferta não se limita à triagem. No horário estendido, o usuário encontra consulta médica e de enfermagem, odontologia, pré-natal, puericultura, vacinação, curativos, testes rápidos de HIV, sífilis e hepatites, acompanhamento de hipertensos e diabéticos e dispensação de medicamento, por demanda espontânea, bastando documento com foto e Cartão SUS.

A ampliação mais silenciosa veio em 2025, quando a Prefeitura incorporou 80 equipes de Saúde da Família e fez o total saltar de 77 para 157 — a maior expansão da atenção primária na capital em duas décadas. A prioridade foi o 6º e o 7º Distritos Sanitários, que cobrem Benedito Bentes e Tabuleiro, as regiões mais populosas da cidade. Somadas às 36 equipes de Atenção Primária, são 193 no total, com cobertura potencial de 62,81%, segundo balanço da SMS divulgado em janeiro.
O processo não correu sem atrito: ainda em janeiro de 2025, o sindicato da categoria denunciou falta de diálogo no remanejamento de profissionais, e a secretaria respondeu que as unidades viviam uma "fase temporária de adaptação".

De todos os serviços da rede, o Serviço de Atenção Domiciliar é o que chega mais fundo e o que menos aparece. Nove equipes multiprofissionais e três de apoio atendem de domingo a domingo, com cerca de oito visitas diárias cada, num público que dificilmente sai do quarto: acamados recém-saídos do hospital, sequelados de AVC, pacientes com lesões que não cicatrizam. As equipes também orientam o cuidador — quase sempre um familiar sem qualquer formação técnica, que assume a rotina clínica em casa.

Em janeiro de 2022, o SAD passou a levar ao domicílio um consultório odontológico portátil, com cadeira adaptada, instrumental esterilizado, sugador e compressor. O primeiro atendido foi José Reinaldo Muniz, 51 anos, paraplégico, morador da Serraria, que havia anos não recebia tratamento bucal simplesmente porque tirá-lo de casa era inviável. O SAD em si é federal, vinculado ao Melhor em Casa, e já operava em Maceió antes desta gestão; o consultório itinerante, não.

O PAM que sobreviveu a 1970

Maior unidade de média complexidade de Alagoas, o PAM Salgadinho foi reformado bloco a bloco ao longo de 2025. O Bloco E ganhou Ambulatório Cirúrgico e Centro de Feridas, enquanto o Bloco F, com 32 profissionais distribuídos em nove consultórios, passou a atender cerca de 790 pacientes por mês em nove especialidades odontológicas. O Bloco P, pediátrico, foi adaptado com brinquedoteca e ambientes lúdicos, e o Bloco I tornou-se referência regional em infecções sexualmente transmissíveis, com PrEP, PEP e seis mil pacientes em tratamento de HIV.

Os exames de imagem e de laboratório passaram a funcionar também aos sábados, das 8h às 12h, para quem não consegue comparecer durante a semana. Em agosto de 2026, já sob o prefeito Rodrigo Cunha, a Prefeitura entregou a recuperação dos dez blocos do complexo e a informatização integral da unidade.

Meio século depois de inaugurado, o PAM voltou a funcionar como porta de entrada de fato, e não como o corredor de espera em que havia se transformado.